A chuva começou antes do anoitecer.
Da janela do quarto, Theo observava os fios d’água escorrendo pelo quintal tomado pelo mato. A velha casa da família parecia encolher sob o temporal, rangendo como se respirasse. Havia semanas que sua mãe andava estranha — sempre fechando portas atrás de si, cochichando ao telefone de madrugada e proibindo Theo de entrar no sótão.
Naturalmente, foi para lá que ele decidiu ir.
A escada dobrável desceu com um gemido metálico. O cheiro de poeira e madeira úmida era sufocante. Entre caixas mofadas, retratos sem moldura e móveis cobertos por lençóis, Theo encontrou um pequeno baú de madeira escura escondido atrás de uma cômoda antiga.
Era pequeno demais para guardar algo importante.
Mas pesado demais para estar vazio.
A superfície estava marcada por símbolos riscados à faca — círculos imperfeitos, linhas tortas e algo parecido com um coração atravessado por espinhos. Quando Theo tocou o trinco, sentiu a madeira morna, quase pulsando.
O cadeado estava quebrado.
Dentro havia apenas um objeto.
Um coração.
Não um coração de brinquedo ou escultura comum. Era vermelho-escuro, brilhante como carne fresca, com veias finas serpenteando pela superfície. Parecia humano. Parecia vivo.
E batia.
Tum.
Tum.
Tum.
Theo deixou a caixa cair. O coração continuou pulsando dentro dela, indiferente ao choque.
Foi então que as luzes da casa se apagaram.
No andar de baixo, ouviu a voz da mãe:
— Theo?
Ela nunca gritava seu nome daquele jeito.
Quando ele desceu segurando a caixa, encontrou a mãe parada no corredor. O rosto dela perdeu a cor imediatamente. Os olhos fixaram-se no objeto como se tivesse visto um cadáver voltar à vida.
— Onde você achou isso?
A pergunta saiu quase sem ar.
Theo tentou responder, mas a mãe arrancou a caixa de suas mãos violentamente. Pela primeira vez na vida, ele viu medo verdadeiro nela. Não preocupação. Não susto.
Medo.
Naquela noite, ela trancou todas as portas da casa. Fechou janelas com tábuas velhas retiradas do porão. Acendeu velas em cada cômodo e espalhou sal diante das entradas.
Theo ouviu choros vindos das paredes.
Primeiro baixos.
Depois próximos.
Na manhã seguinte, encontrou marcas úmidas de pegadas pelo corredor. Pequenas. Como pés infantis enlameados.
A mãe fingiu não ver.
Os acontecimentos pioraram nos dias seguintes.
O cachorro do vizinho apareceu morto no quintal, com o peito aberto. Relógios da casa passaram a parar exatamente às 3h17. Theo começou a ouvir alguém respirando sob sua cama todas as madrugadas.
E havia a névoa.
Ela surgia toda noite ao redor da casa, espessa demais para ser natural. Pela janela, Theo enxergava silhuetas imóveis entre as árvores. Pessoas observando.
Ou esperando.
Numa madrugada, acordou com um som molhado vindo do corredor.
Tum.
Tum.
Tum.
Seguiu o ruído até a cozinha. A caixa estava sobre a mesa.
Aberta.
O coração pulsava mais rápido agora.
E sua mãe estava ajoelhada diante dele, chorando.
— Eu enterrei você… — ela sussurrava. — Eu enterrei você…
Theo recuou lentamente.
Então percebeu outra voz respondendo.
Uma voz infantil.
Vinda de dentro da caixa.
— Mentira.
A mãe levantou o rosto devagar. Havia sangue escorrendo de seu nariz.
— Ele não pode acordar — disse ela. — Você não devia ter encontrado isso.
Naquela noite, finalmente contou a verdade.
Antes de Theo nascer, ela tivera outro filho: Elias. Um menino doente, silencioso, que dizia conversar com coisas invisíveis na floresta atrás da casa. Aos sete anos, Elias desapareceu durante uma madrugada coberta por névoa.
A polícia nunca encontrou o corpo.
Mas a mãe encontrou.
Dias depois.
Enterrado sob a velha figueira do quintal.
Com o peito vazio.
Segundo ela, algo habitava o menino antes mesmo de seu nascimento. Algo antigo. Algo faminto. E quando Elias morreu, o coração foi removido e selado naquela caixa por um homem que conhecia rituais antigos.
— Enquanto o coração permanecesse fechado, ele dormiria.
Theo sentiu o frio subir pela espinha.
— Então por que ele está acordando?
A mãe começou a chorar de novo.
— Porque eu menti.
Silêncio.
— Elias não morreu naquela floresta.
A casa inteira estalou.
As luzes explodiram.
A névoa começou a entrar pelas frestas das janelas.
E do andar de cima veio o som de passos.
Lentos.
Arrastados.
Tum.
Tum.
Tum.
A mãe segurou Theo pelos ombros.
— Quando eu encontrei seu irmão… ele ainda estava vivo.
Os passos pararam acima deles.
— E eu o enterrei mesmo assim.


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