Conto Não mexa em quem está quieto


 O laboratório nunca dormia de verdade.

Mesmo quando as luzes estavam apagadas, havia um zumbido baixo nos equipamentos, um sussurro elétrico que lembrava respiração contida. Catarina já estava acostumada. Tanatopraxista há anos, aprendera a conviver com o silêncio povoado dos mortos e com o peso invisível que paira entre o último suspiro e o esquecimento.

Naquela noite, o corpo chegou sem alarde.

Homem. Meia-idade. Sem causa de morte evidente no relatório preliminar. Nada que chamasse atenção, exceto um detalhe quase tímido, anotado de forma breve: “procedimento prévio não especificado”.

Catarina franziu o cenho, mas seguiu.

Preparou a mesa, alinhou os instrumentos, ajustou as luvas. O ritual era quase coreografado, uma dança precisa entre técnica e respeito. Quando expôs o tronco do cadáver, foi então que viu.

Incisões.

Pequenas. Discretas. Localizadas logo abaixo das costelas, de ambos os lados. Eram finas como linhas desenhadas com régua, suturadas com uma habilidade que beirava o obsessivo. Não era trabalho amador. Não era hospital comum.

Aquilo foi feito com intenção.

Ela se inclinou mais perto, analisando os pontos. A pele ao redor estava levemente escurecida, como se tivesse reagido mal ao que quer que tivesse acontecido ali dentro.

— Estranho… — murmurou para ninguém.

Com cuidado, começou a remover as suturas.

O primeiro ponto cedeu fácil demais.

E então veio o cheiro.

Não era apenas decomposição. Catarina conhecia esse odor, conhecia todos os estágios dele como quem reconhece vozes familiares. Aquilo era diferente. Mais denso. Quase… úmido. Como terra revirada depois de chuva, misturada com algo antigo demais para ter nome.

Ela hesitou.

O ar no laboratório pareceu engrossar, como se tivesse ganhado peso.

Mesmo assim, continuou.

Ao abrir um pouco mais a incisão, algo começou a escapar.

No início, parecia líquido comum. Escuro. Espesso. Mas, conforme escorria, revelava uma consistência errada — grossa demais, viva demais. Uma lama negra começou a extravasar do corpo, lenta e insistente, como se estivesse sendo pressionada de dentro para fora.

Catarina recuou um passo.

— Isso… isso não é possível.

A lama caiu na bandeja com um som abafado. Não era o som de líquido. Era o som de algo que resistia a ser líquido.

O cheiro se intensificou.

E então o laboratório mudou.

Não houve barulho. Nenhuma porta bateu. Nenhuma luz piscou.

Mas algo… ocupou o espaço.

Catarina sentiu antes de ver — uma presença densa, como um corpo feito de ausência. O ar atrás dela ficou mais frio, mais pesado, como se alguém muito grande estivesse parado ali, respirando devagar.

Ela não se virou imediatamente.

Seu coração começou a bater num ritmo estranho, descompassado, como se tentasse acompanhar algo que não era humano.

A lama continuava a sair.

Mais.

Sempre mais.

Como se o corpo fosse apenas uma casca mal selada.

— Tem alguém aí? — sua voz saiu baixa, seca.

Silêncio.

Mas não um silêncio vazio.

Um silêncio que escutava de volta.

Catarina engoliu em seco e, contra cada instinto que gritava dentro dela, virou-se.

Nada.

O laboratório estava exatamente como antes.

E, ainda assim, não estava.

As sombras pareciam mais profundas. Os cantos mais distantes. A porta, que ela tinha certeza de ter deixado entreaberta, agora estava fechada.

Atrás dela, um som.

Ela se virou de volta para a mesa.

A lama… se movia.

Não escorria apenas. Pulsava. Pequenos movimentos ondulantes, como se algo tentasse se reorganizar dentro dela. E, por um instante — um instante breve e terrível — Catarina teve a impressão de que aquilo estava… procurando.

Por ela.

O corpo, antes inerte, emitiu um leve estalo.

Não um movimento completo. Apenas… um ajuste.

Como se algo lá dentro tivesse encontrado espaço.

Catarina deu mais um passo para trás, a respiração curta, a mente tentando desesperadamente encaixar aquilo em qualquer explicação lógica.

Infecção rara.

Reação química.

Alucinação por exaustão.

Qualquer coisa.

Qualquer coisa que não fosse o que sua intuição sussurrava, rastejando pela espinha como dedos frios:

Isso não veio de dentro.

Isso foi colocado.

E agora… estava saindo.

A luz acima da mesa oscilou.

Uma vez.

Duas.

E apagou.

No escuro, o som da lama cessou.

Substituído por algo mais sutil.

Algo que lembrava… um suspiro.

Bem próximo.

Perto demais.

Quando a luz voltou, Catarina estava sozinha.

O corpo permanecia na mesa.

As incisões, abertas.

Mas a lama… havia desaparecido.

Nenhum rastro na bandeja. Nenhuma mancha no chão.

Nada.

Exceto uma coisa.

Na superfície interna da pele, onde ela havia aberto a incisão, havia agora marcas.

Traços finos, recém-formados.

Como se algo tivesse escrito por dentro.

E Catarina, com as mãos tremendo, percebeu que reconhecia o padrão.

Não eram cortes aleatórios.

Eram letras.

Mas ela não conseguiu lê-las.

Não naquela noite.

Porque, a partir dali, uma única certeza começou a crescer dentro dela, silenciosa e inevitável:

Se aquilo tinha saído…

Então já não estava mais no corpo.



Postar um comentário

0 Comentários