Naquela noite, o vento parecia sussurrar coisas que ninguém deveria entender.
Lívia voltava para casa mais tarde do que o habitual, atravessando uma estrada de terra pouco iluminada. O caminho mais rápido passava por uma encruzilhada antiga — dessas que as pessoas mais velhas evitavam, sempre com um olhar sério e uma recomendação curta: “Não mexa no que não é seu.”
Mas Lívia nunca acreditou nessas histórias.
Ao se aproximar do cruzamento, ela viu algo no chão: uma oferenda. Um prato de barro com farofa, pedaços de carne, uma garrafa de cachaça aberta e velas já derretidas, formando pequenas poças de cera endurecida. Ao redor, moedas e um pano vermelho amarrado em um nó firme.
Ela parou.
O cheiro era forte, mas não desagradável. O cenário, quase ritualístico, despertou mais curiosidade do que respeito.
— Que bobagem… — murmurou.
Num impulso misto de desafio e desdém, chutou o prato. A comida se espalhou pela terra. Pegou algumas moedas e as guardou no bolso, rindo sozinha. Antes de sair, ainda virou a garrafa com o pé, derramando o resto da bebida.
O vento cessou.
De repente.
Um silêncio pesado tomou o lugar.
Lívia sentiu um arrepio subir pela espinha, mas ignorou. Foi embora sem olhar para trás.
Naquela mesma noite, o primeiro sonho veio.
Ela estava novamente na encruzilhada, mas tudo parecia... errado. As sombras eram mais longas, a terra parecia respirar, e as velas — antes apagadas — agora queimavam com uma chama azulada.
No centro, alguém estava de pé.
Uma silhueta.
Alta. Imóvel.
Sem rosto.
Lívia tentou se mover, mas seus pés estavam presos ao chão. A figura inclinou levemente a cabeça, como se a observasse… ou julgasse.
Então veio a voz.
Não era um som. Era algo dentro da mente dela, arranhando seus pensamentos.
“Você tocou no que não entende.”
Ela acordou ofegante.
Nos dias seguintes, as coisas pioraram.
Objetos mudavam de lugar dentro de casa. Portas se abriam sozinhas. Às vezes, ela sentia alguém parado atrás dela — tão próximo que podia jurar sentir uma respiração fria na nuca.
Mas, sempre que virava, não havia nada.
Ou quase nada.
Sombras que não combinavam com a luz.
Reflexos atrasados no espelho.
E, uma vez… apenas uma vez… viu a mesma silhueta parada no canto do quarto, antes de desaparecer quando piscou.
Lívia parou de dormir.
Parou de sair.
Parou de rir.
Na sétima noite, o terror se tornou inevitável.
Acordou com o som de passos dentro de casa.
Lentos.
Arrastados.
Vindo da sala.
O coração disparado, ela ficou imóvel na cama, ouvindo. Os passos pararam do lado de fora do quarto.
Silêncio.
Então—
Três batidas na porta.
Secas.
Precisas.
Ela não respondeu.
A maçaneta começou a girar sozinha.
Devagar.
A porta se abriu com um rangido longo, revelando apenas escuridão do outro lado… uma escuridão mais profunda do que deveria existir dentro de uma casa.
E então a voz voltou.
Agora, mais forte.
Mais próxima.
“Devolva.”
Lágrimas escorriam pelo rosto de Lívia. Tremendo, ela correu até a bolsa, pegou as moedas que havia roubado e as deixou cair no chão.
— Eu devolvo! Eu devolvo! — gritou.
O silêncio retornou.
Pesado.
Sufocante.
Mas algo ainda estava errado.
A voz sussurrou pela última vez, quase com… decepção:
“Não é suficiente.”
Na manhã seguinte, os vizinhos encontraram a casa aberta.
Vazia.
Sem sinais de luta.
Sem pistas.
Apenas uma coisa chamou atenção: no chão da sala, cuidadosamente arrumados, estavam um pano vermelho, moedas e restos de comida… como uma oferenda refeita.
E, no centro dela, havia uma marca no chão.
Como se algo tivesse sido arrastado dali.
Para fora.
Em direção à escuridão.


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