Conto O que a boca fala, o mal há de agir


No bairro de Cruzeiro Velho, de ruas estreitas e postes que piscavam como olhos cansados, o silêncio nunca era vazio. Ele escutava. Guardava. Esperava.

Ali vivia Rejane.

Rejane de passos leves, olhar firme e um jeito de falar que parecia sempre medir o mundo antes de atravessá-lo. Não era de muitas palavras, mas escrevia — diziam que escrevia em cadernos velhos, com capas gastas e folhas que pareciam sussurrar quando viradas.

O problema começou quando o bairro decidiu que precisava de uma vilã.

O homem era vereador. Sorriso de campanha, voz treinada, presença constante nas festas locais. Quando a denúncia surgiu — abafada, torta, cheia de medo — ninguém quis escutar. Era mais fácil virar o rosto. Mais fácil ainda inverter a história.

Então alguém disse:

— Ela mexe com coisa errada.

E bastou.

Magia negra. Feitiço. Amarração. Palavras lançadas como pedras, cada uma acertando um pedaço da vida de Rejane. As vizinhas deixaram de cumprimentar. Crianças foram proibidas de passar na frente da casa dela. O mercadinho começou a “não ter mais troco” quando ela aparecia.

E o vereador… continuava sorrindo.

Rejane não respondeu. Não gritou. Não tentou se defender.

Mas à noite, sua janela ficava acesa.

E alguns juravam ouvir murmúrios.

Outros diziam que era só o vento.

Até o dia em que encontraram o corpo.

Rejane estava caída no chão da própria casa, os olhos abertos como se ainda vissem algo que ninguém mais podia ver. Não havia sinais claros de luta. Nem de doença. Nem de nada que explicasse.

Só silêncio.

Um silêncio pesado, espesso, quase pegajoso.

O enterro foi rápido. Pouca gente. Alguns olhares atravessados. E uma sensação estranha que ninguém nomeou.

As coisas começaram depois.

Primeiro, o vereador.

Ele passou a acordar no meio da noite, sufocado, jurando que alguém estava sentado no peito dele. Dizia ver uma mulher no canto do quarto, parada, observando. Ninguém acreditou. Estresse, falaram.

Mas então vieram os arranhões.

Marcas finas, longas, aparecendo nos braços, no pescoço, nas costas — sempre enquanto ele dormia.

Depois, Dona Celina, a vizinha que espalhou a história da magia.

Ela começou a ouvir batidas dentro das paredes. No começo, leves. Depois, insistentes. Como alguém pedindo para sair. Ou para entrar.

Mandou quebrar uma parte da casa.

Não havia nada lá dentro.

Mas naquela mesma noite, ela acordou com terra na boca.

E jurou que estava sendo enterrada viva.

Outros começaram a sofrer também.

O rapaz que disse ter visto Rejane “fazendo ritual” passou a sentir cheiro de queimado onde quer que fosse. Cheiro de cabelo queimando. De pele queimando. Mesmo sem fogo algum.

Uma criança, filha de um dos que riram dela na praça, começou a falar sozinha. Conversava com alguém que ficava “no canto escuro”. Desenhava uma mulher de olhos abertos demais.

Sempre a mesma mulher.

Sempre olhando.

O bairro, antes barulhento, foi ficando quieto. Portas fechadas mais cedo. Janelas trancadas. Ninguém mais ficava na rua depois do pôr do sol.

E a casa de Rejane…

A casa nunca ficou vazia.

Luzes acendiam sozinhas. Som de páginas sendo viradas ecoava à noite. Às vezes, uma silhueta era vista na janela — imóvel, paciente.

Observando.

Esperando.

Dizem que quem passa em frente àquela casa sente um frio que não é do vento. Um peso que não é do ar. Como se algo ali ainda estivesse escrevendo.

Registrando.

Nome por nome.

E no bairro, ninguém mais fala de magia negra.

Porque, no fundo, todos começaram a suspeitar da mesma coisa:

Talvez Rejane nunca tenha feito feitiço algum.

Talvez o que voltou não foi invocado.

Talvez… só tenha sido acordado.


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